Ao longo dos últimos anos, a escrita de Maria Albertina Mitelo tem evoluído em dois níveis paralelos: por um lado, situa-se muito perto das coisas e dos seres mais visíveis ou palpáveis, na materialidade do seu ser por outro lado, impele-nos para um espaço ascensional, que poderíamos relacionar com as aves ou com uma ideia de infinito. Imanência e transcendência. Ou, por outras palavras, esta escrita usa a força das raízes para dar energia ao impulso das asas.
Fernando Pinto do Amaral
Entre O Corpo das Aves, que foi publicado em 2004, e o atual Tempo das Aves estabelece-se um arco que se abre para uma linguagem exigente que encontra a sua melhor realização na imagem e, a partir daí, numa disposição que se torna simbólica. Palavras ou expressões como "voo rasgado", "pássaros altos", "rémiges", "só as aves tocarão o céu" vêm criar um espaço significativo muito denso onde se situam múltiplas derivas imaginativas, que se diria serem ornamentais se não fossem pedidas por aquela ordem simbólica já referida. De tudo isto provém um ritmo que lhe confere uma abertura e, ao mesmo tempo, um fechamento que é a Gestalt - portanto, a forma - de cada estrofe que preferentemente se repete nos seus dez versos. Aí principia "o tempo perfeito" que a poesia nos restitui.
Fernando Guimarães
Oscilando entre o verso livre, o verso medido mas não rimado e a estrofe regular - a décima, sobretudo -, a poesia de Maria Albertina Metelo configura-se como um palco aberto às solicitações da sensibilidade e da memória. As suas palavras, vindas 'do tempo de entre as origens', oferecem-se como lugares de contemplação, de desassossego e 'rara exaltação'.
Albano Martins